RESENHA: 1968 – O ano que modificou a história dos brasileiros Novembro 25, 2008
Posted by Indira Efel Garin in 1968.Tags: "1968 - O ano que não terminou", 1968, Add new tag, Resenha "1968 - O ano que não terminou", Zuenir Ventura e "1968 - O ano que nao terminou"
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“Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”
(trecho da música “Prá nao dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré)
VENTURA, Zuenir. 1968 – O ano que não terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
O livro “1968 – O ano que não terminou” vendeu mais de 400 mil exemplares e foi publicado em 1988 para reconstituir os obscuros acontecimentos daquele ano. Escrita pelo jornalista e professor universitário Zuenir Ventura, a obra é a reconstrução dos mais importantes eventos que ocorreram nesse conturbado ano no Brasil. O conteúdo do livro começa com a descrição de uma movimentada festa de Réveillon, com a presença da elite social carioca. A farra foi realizada no alto do Jardim Botânico, na casa do casal Luís e Heloisa Buarque de Holanda, amigos do jornalista. E termina com a decretação de uma medida de exceção, o AI-5 (Ato Institucional número cinco), em 13 de dezembro de 1968, pelo então presidente da época, o General-de-Exército Arthur Costa e Silva.
Zuenir conta em estilo jornalístico como tudo foi acontecendo. Desde a festa de primeiro do ano na casa de Helô, mostrando separações de casais, traições e brigas, fatos que iriam se tornar normais em uma geração que tinha como objetivo virar o mundo de cabeça para baixo. O jornalista por outras cenas marcantes, como a entrada do anticoncepcional no mundo feminino, as peças teatrais proibidas de continuarem a ser apresentadas pela censura, os festivais de músicas reveladores da moderna melodia popular brasileira: a Tropicália, com Caetano Veloso, além de Chico Buarque, Geraldo Vandré e outros cantores.
Algumas barricadas tinham como lema “é proibido proibir”. A morte do estudante Édson Luís de Lima e Souto e suas conseqüências marcaram o ano. Como, por exemplo, a passeata dos cem mil, na Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, e os discursos de líderes contra a tirania. Zuenir mostra, ainda, as violências provocadas pelos meios de repressão do Estado, e a preocupação das mães com seus filhos, lutando pelos seus ideais nas ruas. A invasão da UnB (Universidade de Brasília) por tropas militares espancando alunos, professores e até mesmo parlamentares, com o pretexto de prender líderes estudantis, foram outros trechos marcantes. Até chegar o AI- 5 e as suas duras revelações, como a prisão de personalidades importantes na época.
Os eventos desse ano ocasionaram mudanças incríveis, principalmente no contexto social e político do Brasil. As agitações estudantis da época mostram que todos estavam dispostos a lutar contra a ditadura, a favor da liberdade de expressão e, principalmente, pelos seus direitos.
Além de ser um estudioso sobre o memorável ano, Zuenir também participou dos acontecimentos. E isso acaba deixando o conteúdo da obra mais interessante, pois ele presenciou todos os fatos descritos no livro. O jornalista traz ainda na narrativa depoimentos de muitas pessoas que viveram na época, e que participaram dos acontecimentos, fazendo com que o ano de 1968 entrasse para a história como o começo de uma nova época, o início de algo diferente.
O livro, por ilustrar os fatos pelo olhar de quem os fez, prende a atenção do leitor. As pessoas que discursavam e lutavam na época são as mesmas que ajudaram o professor universitário a contar os eventos. Os testemunhos dão mais veracidade aos textos. Porém, por tratar-se de uma obra jornalística, o autor deveria trazer junto o outro lado da história. Porque o volume só mostra a luta dos estudantes, deixando de lado a opinião e as declarações dos indivíduos que comungavam de outros ideais e que também foram atores dos mesmos fatos narrados. Zuenir ouviu apenas os relatos de quem sofreu com os acontecimentos, esquecendo de que sempre há três verdades para os fatos; o meio termo e os dois lados do acontecimento.
Mesmo assim, o livro não deixa de ser uma obra importantíssima para relembrar os momentos que muitos pais e avós viveram, remontando uma parte dos acontecimentos históricos mais importantes que ocorreram no Brasil: a ditadura. Tais fatos acabaram mudando o país, fazendo uma geração inteira virar o mundo pelo avesso e deixar marcas para todas as outras formações. Como mostra o trecho da música “Prá dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré, reproduzida no início desta resenha, as pessoas não esperaram acontecer. Uma das melodias que viraram lemas de passeatas dizia: “esperar não é saber”.
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